Tuesday, October 27, 2009

A falta...


Hoje acordei num susto, sem fôlego, sentindo que estava faltando algo, como há muito tempo eu não sentia. Foi me dando aquela angústia, aquele aperto vazio tão típico. Girei na cama na esperança de que se eu mudasse de posição um numero de vezes suficiente, balançando todo meu corpo, eu seria capaz de colocar de volta no lugar aquilo que parecia estar faltando. Mas não adiantou, aquele sentimento de falta continuava lá, me sufocando. Levantei no quarto ainda com as janelas fechadas, tudo escuro e me dirigi ao banheiro. Lavei o rosto e ao olhar no espelho já não me reconhecia mais! Que diabos estava acontecendo, eu estava ainda em um pesadelo? Brincadeira de mau gosto? Queria de volta aquilo que havia sido tomado de mim, mesmo eu não sabendo ainda o que seria, eu me queria de volta, queria me olhar no espelho e me reconhecer novamente!
Abri a janela em pânico, com um grito abafado na garganta, na esperança de que os raios quentes de sol me fizessem acordar no mundo em que eu conhecia. Mas não aconteceu. O céu estava azul, o sol brilhando ainda fresco pois era começo do dia e um passarinho pousou no fio de luz em frente á minha janela. Sorri.
Sorri como há muito tempo eu não sorria, um sorriso vindo do fundo da alma, naquele lugarzinho que eu tinha trancado a sete chaves e tentado esquecer. Aquele lugarzinho chamado felicidade. Aos poucos fui identificando o que estava faltando, o vazio que estava me consumindo era o vazio deixado por toda carga pesada de ódios, tristeza, mágoas e rancores que eu já havia me acostumado carregar por tanto tempo. A pessoa que eu vira no espelho não era mais aquela com os olhos fundos de tanto chorar e com a qual eu já havia me acostumado comprimentar todas as últimas manhãs. Essa leveza toda me estranhava, a leveza da paz e da liberdade que fazia tempo que eu tinha cortado do meu cardápio.Estava tão leve que tinha medo de uma brisa me levar embora.
Hoje acordei vazia. Vazia de ódios, vazia de frustrações e vendo esse vazio tão grande percebi como era pesada a carga que eu carregava na alma e mal percebia. Tinha virado uma das mulheres mais fortes do mundo porque eu conseguia carregar todo esse peso mas a mais fraca dos seres humanos pois não conseguia carregar 10 gramas de perdão.
Mas confesso que tenho medo desse mundo novo, tenho medo dessas asas que eu não sei usar, tenho medo de toda essa felicidade e paz que invadiram a minha vida subitamente. Antes era tudo tão previsível: amanhã eu vou acordar, regar minha plantinha de mágoas, fechar os olhos para a beleza do mundo, resmungar o previsível, me cansar, chorar, ruminar dores na hora do almoço, lanchar um pedacinho de tristeza com cobertura de frutrações e ir dormir com o estômago vazio de qualquer sentimento minimamente bom. Agora todo esse mundão cheio de coisas maravilhosas para acontecer, olhando pra mim e me chamando...me assusta. Tenho receio que esse medo todo do novo me leve de volta para o buraquinho escuro do passado tão dolorido mas ao mesmo tempo tão seguro. O previsível é seguro, por pior que ele seja, estive acostumada ao previsível por muito tempo e agora com as rédeas de novo na minha mão...posso ir para qualquer lugar. QUALQUER LUGAR! Até aquele tão temido chamado felicidade.

2 comments:

Jornalista e pensadora de sonhos azuis said...

Excelente, texto! Parabéns!

Anonymous said...

;) ;) ;) as tu un numero fixe où t'appeler pequena salamandra??

c moi, cristina from parigiiii. lejana paris.