Sunday, December 10, 2006

Sinto falta

Sinto falta. Falta de acordar aos sábados de manhã para ir andar a cavalo aopodendo ficar até mais tarde curtindo o conforto de minha cama. De chegar à hípica com o sol recém saído, sentir aquela brisa gostosa provocando um farfalhar sonoro das árvores que sombreavam o caminho até as baias. Falta de chegar perto das baias, e de tentar, na ponta dos pés, olhar o magnífico animal que estaria lá dentro. Caminhava de baia em baia, apoiando com as mãos na porta para olhar e acariciar cada animal. De longe avistava alguns me olhando curiosos com as cabeças foras de suas baias. Aproximava-me lentamente, num misto de medo e admiração, estendia a minha mão e deixava que me cheirassem. O medo ia desaparecendo e me aproximava mais,e eu, que já sou pequena, me sentia menor ainda perante esse animais. O tempo parava enquanto eu me enxergava em seus grandes olhos negros, enquanto eu conversava baixinho com cada um deles, enquanto eu brincava com suas grossas crinas, fazendo tranças, entrelaçando meus dedos por entre os fios. Sinto falta do cheiro das baias, do cheiro dos animais. Tem gente que sei que vai me achar louca por gostar desses cheiros, mas hoje em dia, sempre que sinto odores como esses, imediatamente sou transportada àquela época. Sinto falta do som dos cascos batendo contra o chão, como uma música cuidadosamente preparada. Do modo como me seguiam quando eu os tirava da baia, e eles, naquele passo lento e cadenciado, como que agradecendo por lhes permitir respirar o ar do dia que nascia. Sinto falta do ritual de ver o tratador colocar-lhes a sela, o arreio, arrumar os estribos. Atentava-me em cada detalhe na esperança de um dia poder repetir esse ritual num animal que fosse só meu. Antes de montar, acariciava suas crinas, dava suaves tapinhas em suas largas testas como que pedindo para que fossem pacientes comigo. Sinto falta, de, em minha inicial falta de orientação, nunca saber qual era o lado certo de montar. Tinha medo, pedia ajuda do tratador para me colocar em cima dos animais. Lembro de como me senti grande no dia em que consegui subir na sela sem ajuda. Não que eu houvesse crescido, apenas havia perdido o medo, havia aprendido que não devemos temer esses belos animais, mas sim amá-los. Sinto falta do sentimento que tinha cada vez que eu montava em um animal. Via tudo mais longe. Lá em cima, me sentia poderosa, sentia-me capaz que chegar a qualquer lugar, traçar meus próprios horizontes e enfrentar qualquer obstáculo.
As aulas de montaria aconteciam ora em campo aberto ora em um picadeiro. Lembro que fiquei feliz ao entrar pela primeira vez em um picadeiro. Lembro que fiquei com medo quando fiz o cavalo trotar pela primeira vez. Mas foi um dos medos mais gostosos que já senti. Sinto falta de medos assim. Sinto falta de sentir o vento contra meu rosto me refrescando do calor do sol que ia esquentando cada vez mais a manhã. Meu instrutor sempre me chamava atenção porque eu, vira e mexe, me distraia acariciando as ancas e o pescoço do animal, me sentia sem graça e constrangida. Hoje vejo que não havia porque me sentir constrangida por motivos como aqueles. Sinto falta de sentir que o mundo sumia em nuvens de poeira levantadas pelas passadas dos animais , de sentir que todas as minhas tristezas ficavam para trás quando eu conseguia fazer o meu cavalo galopar, de sentir meu coração disparar quando meu instrutor aumentava a altura dos obstáculos à minha frente e depois de sentir meu coração bater mais leve quando conseguia passar por esses obstáculos sem derrubá-los. Sinto falta até mesmo dos tombos que hora ou outra eu tomava. Quisera eu que todos os tombos da vida fossem como àqueles. Limpava rápido a terra do corpo e corria atrás do animal para montá-lo novamente.
Por fim, sinto falta da leve tristeza que eu sentia quando a aula terminava e eu tinha que ir embora, mas sabia que essa tristeza só duraria até o próximo sábado, quando, novamente acordaria de manhã e entraria em um mundo me proporcionaria tantos sentimentos bons para sentir essa gostosa saudade.

6 comments:

lilins said...

Bom ter algo tão belo de se sentir saudade!

Gyan said...

Creio que seu coração seja um daqueles que não se doma com facilidade, mas claramente nada que a coragem e o carinho não o façam mudar. Quem o vê transpirando o medo de se entregar a alguém facilmente desiste. As feridas semi-abertas deixam cair as lágrimas que não vi e que ainda gotejam enquanto você caminha. Como muitos outros você é aquela que quer voltar ao que lhe pertenceu, mas não pode. Ninguém pode. O mundo te amarra com a força da sela bem amarrada e sua força de lutar se esvaiu com seus tombos. Enquanto isso seu coração fica preso, parado na falta da intensidade que foi vivida. O pulsar da vida que se perdeu. A vida parece torturar cada um dos seus passos e impedir seus trotes e galopes. Por traz do seu sorriso a tristeza de não poder ser o que você é por essência se apresenta implacável, imutável. Quem será capaz de tirar-lhe a sela e cavalga-lo sem medo, sem pudor, com toda a graça e coragem na qual você descreve o seu cavalgar?

marcosmorce said...

É engraçado como os sentimentos de nostalgia nos invadem com o passar do tempo. Não sei quanto a ti, mas relances de vida sempre me assolam. O passado sempre vem me visitar nesse presente, e mostrar como as coisas simples do passado eram melhores que as bagunças desse presente. Bem não sei quanto a ti minha amiga, mas eu sempre vivi pensando no meu passado e queria que ele fosse sempre meu futuro. Essa é uma pequena esperança que tenho, mas não sei por que acredito também que é uma esperança meio morta...

Viva ao passado e ao cheiro dele. ^^

Bjão

Joefrog said...

Lindo mas assim você me lembra uma amiga muito especial da Terra Brazilis. Ela era assim. Passava tanto tempo polindo o mundo que morria de medo de usá-lo. Já ouviu falar que o mundo não é só o que se sonha. A realidade é muito melhor e nela a gente só vive uma vez !! Levanta dessa cama e faz o que quer ! Receita fácil para comer o mundo: O que eu quero (pegue a primeira coisa das milhões que aparecerem) ? O que eu preciso (enumere)? Faça. Mas faça de graça porque o preço disso tudo será pago só por você. Os amigos estarão lá, relaxe que no momento certo eles vão aparecer.
Está na hora de fazer (que chato né...parar a filosofia toda e comer sonhos dos outros com feijão). Hehehe
A melhor parte ? É que ninguém se arrepende quando as coisas começam a acontecer (especialmente porque foram por sua causa).

Joefrog said...

Dona Let, desafio você agora. Dê uma olhada no meu blog.
Beijo de ponta-a-cabeça. Até.

Joefrog said...

Não Salamandra, estar de cabeça para baixo no mundo te deixa sempre com seus pés nas núvens. Eu estava pensando no que você me escreveu e cheguei a conclusão que verdades seguem o sol. Elas são fortes sim, mais fortes do que você imagina. É por isso que estamos sempre atrás de uma para nós. Cada um vai atrás daquela parcela de verdade que te apraz.
Dê uma chance a sua de vez em quando. Acredite vai !! Mas acredite até o último segundo. Se não tiver motivos vai só por sua causa mesmo !! Você só perde quando desiste do que sonha e isso não é direito seu, não é mesmo ? O que mais demora nessa vida é aprender como transformar o que se sonha em verdade. Sabe a receita mágica ? Então. faz a sua. Coloca tudo no caldeirão e vai fazer o que está planejando enquanto a sopa cozinha. E se tudo der errado, e daí ? A gente só vive uma vez mesmo. Que seja essa a melhor ! E que venha o mundo !!

Beijo de longe e boa sorte

Ps.:
1. O que tem sonhado para você ultimamente ?